setembro 2026

Minha mão canhota segura uma lapiseira sobre um caderno pequeno aberto. Na página, o desenho a lápis do número 25 em forma de fita e, ao lado, escrito à mão: "insight após lavar a louça kkk". Ao fundo, desfocado, um notebook aberto. Na borda do caderno, papel laranja preso por grampo (teste de textura).

Selo 25 anos FABAMED

Identidade comemorativa · 2026 A clienteA FABAMED — Fundação ABM de Pesquisa e Extensão na Área da Saúde — é uma entidade de direito privado (mantida sem vínculo com o poder público), sem fins lucrativos e de caráter científico e cultural. Atua com gestão, inovação e prestação de serviços na área da saúde. Em 2026, completa 25 anos. O desafioCriar um selo comemorativo que conversasse com a marca, e não competisse com ela. A maioria dos selos de aniversário é um número decorado, aplicado por cima da identidade existente. Fica bonito e fica descartável. O estaloPassei dias sem conseguir desenhar nada. A solução chegou fora da mesa de trabalho, lavando louça — uma daquelas tarefas que ocupam a mão e liberam a cabeça. O símbolo da FABAMED é uma fita em “S”. Com um traço reto no topo, aquela fita vira um “5”. E se o 5 estava ali, o 2 também estava: é a mesma forma, girada e espelhada. O número não foi desenhado do zero. Foi extraído da própria marca. A construçãoDo rascunho a lápis ao vetor (desenho feito por curvas matemáticas, que pode ser ampliado sem perder qualidade), o número foi ajustado sobre um grid — a malha de linhas-guia que garante proporção e equilíbrio entre as duas formas. O gradiente (passagem suave de uma cor para outra) devolve ao número o aspecto de fita dobrada, com faces claras e escuras, como se houvesse luz batendo no papel. A aplicaçãoPrata no número, dourado no nome e no “ANOS”, azul institucional no fundo. A hierarquia mantém a marca em primeiro plano e o selo como celebração, não como substituição. O resultadoUm selo que não poderia pertencer a nenhuma outra instituição.

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Eu uso look verde musgo com blusa segunda pele preta, apresento o podcast Fronteira Circular, minha mão esquerda aponta para a tv que exibe a apresentação. Raphael está sentado e manuseia o computador

A leiga da sala

Alguns minutos antes, eu disse pra minha irmã que estava nervosa. Era eu quem ia falar. Não tinha como escapar disso. Meu corpo faz isso quando chega uma grande responsabilidade. Ele avisa antes de mim. Aperta, esquenta, acelera. Já entendi que não adianta discutir com ele. O que eu ainda não sei é o que fazer com ele. Sei que chega, sei que passa, e sei que ninguém de fora enxerga. A sala estava cheia de gente que estudou a vida inteira aquilo que eu ainda estou aprendendo a nomear. Gente com anos de laboratório, com títulos, com um vocabulário que eu vou anotando no celular para não esquecer. Eu sou nova nesse mundo de deeptech, empresas que nascem dentro da pesquisa científica. Faz um ano. E o que eu ia apresentar tinha saído da minha mão na véspera, correndo, em poucas horas, para existir a tempo. Muitas vezes eu sinto medo ali dentro. O que eu descobri é que o medo não me paralisa. Eu falei. E enquanto falava, fui vendo as pessoas sorrirem, acompanharem meu raciocínio, entenderem. Depois vieram me dizer que tinha sido impecável. Eu ouvi meio de longe, como quem ouve falar de outra pessoa. Não é assim que eu me vejo. Quase nunca é. Mas teve uma coisa que eu entendi ali na frente, e essa eu vou guardar. Eu não me coloquei como especialista. Me coloquei como o que eu de fato sou naquela sala: uma pessoa leiga, que está aprendendo, e que tem a função de traduzir. Ninguém me chamou para saber tudo. Me chamaram porque alguém precisa contar de um jeito simples o que aquelas pessoas fazem. E é isso que eu faço há mais de vinte anos, no design, na voz, na edição. Ninguém entrega em poucas horas, no primeiro ano de nada, o que eu entreguei naquela véspera. Aquelas horas são vinte e um anos. Por isso eu evito me comparar com quem está na sala comigo. Não é sabedoria, é sobrevivência. Cada um chegou ali por um caminho, com um tempo e um aprendizado que são só dele. Se eu medir o meu percurso pelo dos outros, eu perco o meu. Sigo com medo. Sigo com o corpo reclamando. E sigo indo. Fico pensando quantas vezes a gente se acha despreparado numa sala onde já está, faz tempo, fazendo a coisa. Quantas vezes já aconteceu com você? Escrevi este texto a partir da minha experiência na comunicação da Bispora, deeptech de biotecnologia e bioeconomia circular que completou três anos em 2026. É lá que eu cuido da identidade visual, dos textos e da produção do Fronteira Circular, podcast da empresa sobre ciência, sociedade e mercado, apresentado pelo CEO Raúl Bonne Hernández, com Daniela Droppa e Carlos Foz no episódio de estreia. Texto publicado originalmente na coluna Olhar de Dentro, no Olho Vivo – Cinform publicado no dia 04 de setembro de 2026. Leia no Cinform.

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