Alguns minutos antes, eu disse pra minha irmã que estava nervosa. Era eu quem ia falar. Não tinha como escapar disso.
Meu corpo faz isso quando chega uma grande responsabilidade. Ele avisa antes de mim. Aperta, esquenta, acelera. Já entendi que não adianta discutir com ele. O que eu ainda não sei é o que fazer com ele. Sei que chega, sei que passa, e sei que ninguém de fora enxerga.
A sala estava cheia de gente que estudou a vida inteira aquilo que eu ainda estou aprendendo a nomear. Gente com anos de laboratório, com títulos, com um vocabulário que eu vou anotando no celular para não esquecer. Eu sou nova nesse mundo de deeptech, empresas que nascem dentro da pesquisa científica. Faz um ano.
E o que eu ia apresentar tinha saído da minha mão na véspera, correndo, em poucas horas, para existir a tempo.
Muitas vezes eu sinto medo ali dentro. O que eu descobri é que o medo não me paralisa.
Eu falei. E enquanto falava, fui vendo as pessoas sorrirem, acompanharem meu raciocínio, entenderem. Depois vieram me dizer que tinha sido impecável. Eu ouvi meio de longe, como quem ouve falar de outra pessoa. Não é assim que eu me vejo. Quase nunca é.
Mas teve uma coisa que eu entendi ali na frente, e essa eu vou guardar.
Eu não me coloquei como especialista. Me coloquei como o que eu de fato sou naquela sala: uma pessoa leiga, que está aprendendo, e que tem a função de traduzir. Ninguém me chamou para saber tudo. Me chamaram porque alguém precisa contar de um jeito simples o que aquelas pessoas fazem. E é isso que eu faço há mais de vinte anos, no design, na voz, na edição.
Ninguém entrega em poucas horas, no primeiro ano de nada, o que eu entreguei naquela véspera. Aquelas horas são vinte e um anos.
Por isso eu evito me comparar com quem está na sala comigo. Não é sabedoria, é sobrevivência. Cada um chegou ali por um caminho, com um tempo e um aprendizado que são só dele. Se eu medir o meu percurso pelo dos outros, eu perco o meu.
Sigo com medo. Sigo com o corpo reclamando. E sigo indo.
Fico pensando quantas vezes a gente se acha despreparado numa sala onde já está, faz tempo, fazendo a coisa. Quantas vezes já aconteceu com você?
Escrevi este texto a partir da minha experiência na comunicação da Bispora, deeptech de biotecnologia e bioeconomia circular que completou três anos em 2026. É lá que eu cuido da identidade visual, dos textos e da produção do Fronteira Circular, podcast da empresa sobre ciência, sociedade e mercado, apresentado pelo CEO Raúl Bonne Hernández, com Daniela Droppa e Carlos Foz no episódio de estreia. Texto publicado originalmente na coluna Olhar de Dentro, no Olho Vivo – Cinform publicado no dia 04 de setembro de 2026. Leia no Cinform.



