Já assinei o design de dez livros. Em quase nenhum deles fiz a mesma coisa.
Às vezes essa confusão custa caro para quem contrata. A pessoa pede “diagramação” quando na verdade precisa de projeto gráfico. Ou acha que ao encomendar a capa vai receber o miolo junto. Então vou explicar cada uma dessas quatro coisas, usando os meus próprios livros como exemplo.
Projeto gráfico é o sistema.
É a decisão de como o livro vai funcionar do começo ao fim. Qual o tamanho da página. Onde começa e termina a mancha de texto. Qual a fonte, em que tamanho, com quanto espaço entre as linhas. Como os títulos se diferenciam dos subtítulos. O que acontece quando entra uma imagem, uma tabela, uma citação.
Nada disso aparece em uma página só. Aparece na repetição. Um bom projeto gráfico é aquele que você não percebe: você lê duzentas páginas sem cansar e não sabe dizer por quê.
Foi o que fiz em Mobilidade por Bicicleta no Brasil e em Mobilidade e Cultura de Bicicleta no Rio de Janeiro, os dois de 2016. Livros técnicos, cheios de dados, gráficos e fotos. O trabalho ali foi criar uma estrutura que aguentasse tanta informação diferente sem virar bagunça.
Diagramação é aplicar esse sistema, página por página.
O projeto gráfico diz como deve ser. A diagramação é fazer acontecer no texto real — que nunca se comporta como o previsto. O capítulo termina com uma linha órfã no alto da página. A imagem não cabe onde deveria. O parágrafo estica e abre buracos brancos no meio da frase.
Diagramar é resolver esses mil probleminhas, um por um, sem quebrar as regras do projeto. É um trabalho invisível e paciente.
Em Além das Lentes (2021) e em Magia da Gratidão (2024), entrei nessa etapa.
Ilustração é criar as imagens.
É a parte mais óbvia da lista, mas tem uma sutileza: ilustrar um livro não é desenhar coisas bonitas. É desenhar coisas que conversem com aquele texto, naquele ritmo, naquela quantidade certa.
Em Caminhando, lançado este ano, fiz as aquarelas, o projeto gráfico e a diagramação. As três coisas. Quando é assim, o livro ganha uma unidade difícil de alcançar de outro jeito — porque a mesma pessoa decidiu o desenho e o espaço onde ele ia morar.
O mesmo aconteceu em Herbolário: a etimologia e a biotecnologia das plantas medicinais (2022). Ilustração, design e diagramação. Um livro sobre plantas medicinais, com etimologia e biotecnologia dentro. A aquarela foi o que deixou o assunto técnico respirar.
Capa é um projeto à parte.
Aqui está o mal-entendido mais comum. A capa não é a primeira página do miolo. É outro trabalho, com outra função.
O miolo é para quem já decidiu ler. A capa é para quem ainda não decidiu. Ela precisa funcionar pequena, na tela de um celular, no meio de outras cinquenta. Precisa dizer o gênero, o tom e a promessa do livro em dois segundos.
Fiz só a capa em O Vagalume – 20 anos de entrevistas e memórias do menino que virou jornalista e em Borboletas em Flor, os dois de outubro de 2025. E também na coleção de quatro livros do Colégio Arqui, em dezembro do mesmo ano — que tem ainda outro desafio: quatro capas diferentes que precisam parecer da mesma família.
Na hora de contratar
Se você está com um livro na mão, as perguntas são estas:
O texto já existe e só precisa ser encaixado em um formato que já foi definido? É diagramação.
O livro ainda não tem cara e você precisa decidir como ele vai ser? É projeto gráfico — e depois vem a diagramação.
O miolo já está pronto e falta o que vai na frente? É capa.
Precisa de imagens que ainda não existem? É ilustração.
E não tem problema nenhum não saber. Eu pergunto. Só é melhor descobrir antes do orçamento do que depois.



